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domingo, 17 de julho de 2011

Trigésima Sétima Carta: Olhos e bocas.

"Minhas palavras travaram-se na garganta, bem abaixo do coração que pulsou quase fora da boca. Seu pai se foi. A ficha não entra na cabeça e a verdade não desce a garganta; nem a seco, nem a molhado. E eu não faço a mínima ideia do que dizer. Você me conhece como um homem de grandes palavras que um dia fora criança e tornou-se homem após ler um dicionário e encantar-se com as mais diversas palavras. Entretanto, dentro daquela situação, todas as palavras fugiram. Uma seleção inteira de vocábulos pareciam completamente baldadas, inúteis. Por mais que se saiba, das 8000 palavra, o que dizer, não se sabe mais nada... E aí o silêncio e o lábio torcido é o que fica. E a seriedade de um homem de palavras magníficas toma todo o âmbito no qual nem as lágrimas se mostram. Coragem? Maturidade? Nem um, nem outro. Chorar não é a melhor forma de esquecer a dor, mas é a melhor forma de mostrar que está doendo. Entende? É difícil para todos. Por todo o tempo vamos nos preparando para sermos firmes em situações semelhantes e passarmos a imagem de uma estrutura firme. Mas nesse momento, nós dois erramos. Nessa hora, você devia estar chorando sobre meu ombro: eu, a estrutura séria e você, o sofredor. Entretanto, você quis ser forte. E esse foi o seu erro: ser forte no momento errado. Tudo bem que o desequilibro não deve ser o ponto principal de um homem, mas deveria chorar... Experimente, vai te fazer bem. Posso estar parecendo grosso, rude, seco e insensível com tais palavras, mas é o melhor que posso oferecer e, na amplitude da minha consciência, é o mais certo modo de se expressar. Portanto, chore. Chore. Pois foi erro nosso. Seu por ter sido firme e erro meu por antes - durante toda sua vida - te incentivar a ser forte. Mais errado, eu, ainda em ter desleixado em deixá-lo ser forte no momento errado. Me desculpe, eu devia ter dito algo, ter feito algo. E agora não sei o que dizer, nem o que mostrar da minha imagem. É difícil demais para mim passar uma imagem melhor, uma imagem mais "humana", por assim dizer. Mas sabe quando o seu pai morreu? Não foi no momento que ele fechou os olhos, mas sim quando uma palavra morreu: pai. Quando a palavra "pai" foi removida do dicionário, quando a palavra "pai" foi substituída por tristeza quando ,na verdade, deveria ter sido trocada por "paz" ou "amor". Escolha uma delas. Mas perceba, por favor, sei pai não se foi. É claro, eu não acredito no "sobrenatural", mas o que posso lhe dizer é: tenha seu pai na mente, porque, o que morreu, não foi o pai, nem a paz, nem o amor, mas sim a palavra. É difícil entender, eu sei. Mas com o tempo você vai entender a diferença entre um homem e uma palavra. Um homem define o que são 8000 palavras, mas nenhuma palavra definirá o homem. Não definirá seu grande pai, nem você, nem eu, nem ninguém. Uma palavra será apenas uma palavra, pois, enquanto as palavras morrem, os homens ficam nas mentes, se transformando a cada momento em alegria ou tristeza, alterando seu estado. Seu pai será o que você quiser que seja no momento. Agora seu pai pode ser dor, mas depois pode ser orgulho, ou quem sabe amanhã será paz. Você quem dita o significado e você quem diz se dói ou não. Você quem dita se a cicatriz sai ou não. Você quem dita quais palavras usar. Você quem dita o que sai dos olhos e da boca."

Para Silvio José Pereira dos Santos,
para seu pai  e para toda sua família.
Espero que entendam minhas palavras, ou
se não entenderem, não me odeiem, pois
a intenção não está só nas palavras, mas no
coração de um homem  indefinível por palavras. 

Cartas Diretas, obrigado.
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