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quinta-feira, 8 de março de 2012

Quadragésima Oitava Carta: Predadores

"O que somos nós? O que sou eu? Do que sou capaz e pra que sirvo? Pra que fui criado e admiti capacidades? Por que somos tão iguais e diferentes? Nunca haverá resposta enquanto houve opiniões. O homem não é nada e esse nada existente dentro dele consome, gradativamente, o seu meio e seus próximos. Tudo perto dele vira nada a partir do momento que sua opinião passa a influenciar em algo ou alguma coisa, mesmo que só aja o modo bruto ou o vivo, mesmo que não aja pensar e opinião nos demais. Mas ele, o homem, carrega podridão suficiente dentro de si para contaminar aos poucos o que ele mesmo nem quiser contaminar. E, querendo ou não, o homem é seu predador-ápice, uma figura inatingível de sua própria cadeia constituída por sua imaginação. O homem faz de tudo para ter uma presa, por mais que ele não precise. Ele precisa ser forte, ser capaz, ter motivos para ser, para servir de algo, para ter um motivo para existir e para ter capacidades. Ele precisa de um motivo para ser. E ser um predador ameniza o fato de precisar de respostas? Talvez sim, talvez não. Ele pode ser forte, pode ser rápido, inteligente e indomável. Ele pode ser o topo sobre o topo, ele pode constituir uma pirâmide inversa e mesmo assim ser o topo independente do ponto de vista. Ele pode estar no inverso e ser completamente 'compreendível', 'estudável'. Ele é criativo ao extremo e pode dizer coisas que nunca existiram e dar todo um significado para essa inexistência. Só o homem pode ser supremo, e ninguém mais além dele. Basta que ele tenha sua opinião. Quando ele opinar e for capaz de uma pseudo-certeza de ser capaz de discernir, aí sim ele permanecerá supremo - enquanto isso, e sempre, será para sempre um predador-ápice. Um 'o que quiser ser'. Ele poderá ser o predador de um ser maior que ele, e também de um ser menor que ele, e ainda assim de algo que não se considera um ser. Ele pode ser predador dos ditos predadores, ele pode ser predador da imaginação de qualquer ser, podendo ser o medo que assombrar-los-á eternamente. Ele pode ser mágoa, ódio, inveja, dor, medo, tristeza, falsidade, distância, mentiras, lábia, olhos, incerteza, incapacidade, pred... O homem será o que quiser. Ele só precisa de uma opinião, só precisa ter uma ideia sobre aquilo. Ele será bom o suficiente se poder elaborar algo, pois é da mente dele que nascem as idéias predatórias. O homem pode ser supremo, ele pode destruir tudo e todos, ele pode não se importar e ser o predador de toda a massa unida. O homem poderá destruir o que ou quem ele quiser, mas nunca poderá se destruir. Sabe por que? Porque ele tem opinião, e não seria capaz de destruir-se se dando ao luxo de subestimar seu próprio cargo. Ou seja, ele não poderia ser o predador de si próprio; do contrário, demonstraria poder ser rebaixado por outro ser, nem que fosse ele mesmo. Eu não quero ser destruído por ninguém, mas começo, aqui, a achar que me destruir nem faria a diferença. Sou predador-ápice de tanta coisa, de tantas idéias que nem opinião sobre meu 'ser predador' eu tenho. Eu nem sequer consigo levantar a mão contra mim mesmo, nem consigo me entender. Eu preciso é, assim como surgi do nada e tornei o meio em nada, nele me desfazer - eu preciso é me desfazer, não me destruir."

Cartas diretas,
obrigado.
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