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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Quadragésima Nona Carta: Cárcere e Abandono

"A verdade é que vocês duas não acreditariam se eu dissesse, mas eu as amo, demais, inexplicavelmente. Tudo bem que de um modo diferente, mas de um jeito único e exclusivo. Mas vocês duas têm que entender que não chegarão a lugar nenhum assim. Uma está caminhando para um lado, e outra, para o outro. São lados incontáveis, infinitos, de extensões perturbadoras e solo castigante. E juro que não sei como conseguem caminhar sobre esse teto fechado - se bem que eu já estive nessa posição. Por isso eu digo que... eu sei como isso termina. Diretamente, não haverão mais aqueles que juraram estar ao seu lado. Toda promessa uma hora acaba: ou ela é esquecida, ou se quebra, ou se fortifica em outra. Mas sempre acaba. E então, mesmo aqueles que juraram estar sempre ao lado, sumirão. Acontecerá como me ocorreu, e ao olhar para o lado, não haverá ninguém. Estará tudo escuro e vazio, incontestavelmente infinito, cheio de gritos e lamurias do passado. Sabe por quê? Porque os caminhos trilhados levaram para pátios igualmente perturbadores e tristes. Não haverão familiares, amigos e amores. Ah, de fato, amores irão. Familiares um pouco permanecerão. Mas os amigos? Ah, como isso vai doer. Acreditem, eu sei que sim. Aconteceu comigo, com o meu comportamento, que embora um tanto diferente, levou-me à um lugar onde toda escrotidão se aproxima e se fixa com uma estaca de madeira descendo do queixo e atravessando o joelho, para que não grite nem fuja, e então será tarde demais. Eu estive nesse campo, ou ainda estou. Só sei que luto ainda hoje para mostrar que não sou mais Ele, que não sou mais Eu, e quem sou Eu agora. Um vislumbre rápido no que aconteceu e posso vê-las caminhando para a condenação lenta e dolorosa. Perderão tudo. Então, é assim que as aviso. Me livraram do sofrimento os papéis que se encontravam jogados ao chão do campo ensanguentado da tortura... E nem tiveram a intenção de me salvar. Foi apenas uma... sorte. Mas aqui está minha intenção, de salvá-las, uma atitude ridiculamente messiânica e ironicamente preocupada. Talvez seja verdade. Talvez seja belo. Mas é a preocupação, e o medo... de estarem lá algum momento e não saírem mais. Por isso jogo essa carta ao chão, para que leiam quando se inflarem os estopins de suas condenações, num fogaréu bizarro e voraz, célere no ato de consumir e pachorrento no momento de causar dor. Parecerá uma eternidade. E ninguém estará lá para tirá-las. Acreditem... o inferno está composto do abandono..."

Cartas Diretas,
obrigado.
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