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domingo, 11 de agosto de 2013

Septuagésima Segunda Carta: Corvo.

"Pensei que nunca mais precisaria voltar aqui, nesse porão, mas o Corvo disse que eu tinha muito mais pra resolver ainda. E esse gigante nunca esteve tão errado. Desde que nasceu, ele me ensinou que um corvo nunca retorna seu caminho pelo que deixou para trás, mas que sempre embica seu caminho para guiar quem o segue em direção ao que busca. Corvo me ensinou que todo corvo tem esse caráter de nunca abandonar quem quer estar sempre junto. Esse gigante que criei sempre esteve certo, ainda que com sua mentalidade doentia, e com isso sempre me protegeu das lâminas que se apontam na minha direção. Ele nunca se machuca, nunca chora, e nunca sangra... Corvo é a melhor sombra sobre a qual uma criança pode estar. E ele sempre vê e toca tudo, e me tem dado a mais perfeita certeza de que irá me proteger de quem e o quê for. Ele sempre estará lá. Afinal ele está dentro de mim, dentro da minha cabeça, e eu sempre estarei aqui para ele, para fazê-lo existir. Eu dependo da existência dele, e ele, da minha, porque nossos opostos se complementam com tamanha perfeição que o máximo que posso fazer é alimentá-lo com a minha necessidade de sua existência. Ele sempre voou na minha direção e sempre esteve à frente do meu caminho para me guiar. Mas seu bico têm machucado muita gente, tem ferido muita carne sem que eu notasse, e só me dei conta quando isso explodiu e respingos voaram em minha direção. Agora, preciso construir meu próprio caminho sem a ajuda de um animal, de um gigante internamente criado que nunca deixou de ser parte de mim. Corvo sempre estará aqui, por mim, mas agora o caminho é inteiramente de construção minha. Corvo... me desculpe... mas preciso seguir sozinho. Esse não é o seu fim, e sei que retornará numa boa hora. Obrigado por segurar meu choro, mas jamais diga novamente que eu posso explodir, pois você sabe aqui dentro o que quase ocorreu. Fique aí um tempo guardado até que eu possa reparar tudo... você vai gostar do que verá... Será um novo caminho para nós - eu e meu gigante. Mas agora eu tenho que protegê-lo, Corvo, e você será grato por isso. Eu entendo toda sua raiva, e você entenderá toda a minha lágrima... Corvo... me desculpe. Mas você se deixou levar pelo sentimento de revolta quando me chamaram de 'criancinha' e zombaram do meu protetor. Você também o protege, né? Pra você, só eu e ele que importamos, certo? Então me deixe fazer o que acho certo, agora... Você vai me agradecer... Você vai descansar em paz... Corvo. Obrigado. Por tudo."

Carta Direta,
obrigado.
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